quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Minha mãe é uma peça" - Manifestação pacífica e engraçada.


 Eu ainda não vi manifesto das donas de casa estressadas, que reclamam dos maridos que as abandonaram, mas  deixaram  os filhos adolescentes e seus dramas.
Coube ao cinema brasileiro fazer isso com talento e bom humor.
“Minha mãe é uma peça”, em cartaz nos cinemas e com o surpreendente Paulo Gustavo no papel de Dona Hermínia, foi capaz de me convencer a “vemprocinema, vem”,  e eu convoco vocês.
Bem escrito, o filme contribui para enfraquecer o preconceito contra os gays e gordinhos e valoriza o papel insubstituível, e necessário nestes tempos de tantas mudanças, que a família exerce para o bem de nossas vidas.
Hermínia  foi abandonada pelo marido bonitão(Herson Capri) que escolheu uma mulher mais nova, e fútil(Ingrid Guimarães), e tem que sobreviver com o abandono humilhante e uma dupla de filhos que se esforçam para aguentar suas rabugices. A mãe, de bob na cabeça o tempo todo, se esforça para controlar o que lhe restou de um casamento fracassado.
Gargalhadas para a atuação de Paulo Gustavo, humorista da nova geração, que nos faz esquecer que não é uma mulher de verdade e ainda interpreta, com louvor, todas as Hermínias da vida real.
Um filme sobre a família que todos nós conhecemos na vizinhança e que a vizinhança também "conhece".
Paulo é o próprio autor da peça que inspirou o filme.
É uma boa comédia e vocês não vão protestar contra o blog depois da sessão.

terça-feira, 23 de abril de 2013

" Lendas da Paixão ", sábado, seis da manhã


Eu acordei muito cedo. A noite foi confiscada pelo noticiário do atentado nos EUA, onde dois malucos resolveram libertar o mundo, matando e mutilando inocentes.

Costumo procurar filmes nesse horário e já descobri, ou revi, muitos excelentes. Sessão das seis da manhã.
“Lendas da Paixão” é um romance (para alguns, filme de guerra) de 1994, EUA, com Brad Pitt, Anthony Hopkins, Aidan Quinn e Júlia Ormund (O Curioso Caso Benjamin Button e Sabrina, entre outros).
Essa atriz britânica tem um carisma e uma beleza que não consigo definir. Veja você mesmo.
A história se passa nas planícies de Montana (EUA) e talvez por isso tenha ganhado o Oscar de melhor fotografia naquele ano.
Um “coronel” cansado da vida de negócio se refugia em uma fazenda com três filhos bem distintos. O mais novo leva para casa a sua noiva (personagem de Júlia), mas tem que ir para a guerra de todo  mundo, a primeira, na Europa longínqua.
Surge o que me prendeu ao filme, que revia naquela manhã de sábado. Um raro amor nos tempo de hoje, onde relações são novíssimas em folha(seca).
Apaixonada pelo irmão mais inquieto, forte e aventureiro (Brad Pitt), a noiva perde o noivo para as balas alemãs e se entrega ao quase índio, que sobrevive à guerra e traz para casa o coração do irmão, que prometera ao pai proteger.
Mas o seu coração vivo e inquieto o leva para o mundo e deixa a mulher conquistada naquelas terras.
O irmão mais velho revela sua paixão pela mesma noiva e aí os encontros, desencontros, perdas e ganhos, com morte e drama, me levaram a pensar sobre estes amores impossíveis, que alguém pode carregar pela vida toda.
Ela, a musa da planície, até casa com o mais velho e político, mas vai partir, dramaticamente, de paixão pelo aventureiro.
Passa, portanto, boa parte da vida curta fiel ao seu amor, como não se vê nestes tempos.
Nada de reclamação me move, mas que nos faltam esses amores, isso é verdade.
Calma lá, o amor a que me refiro, e que se tornou raro, não tem sexo. O irmão político também passou a vida para conquistá-la e casou mesmo sabendo de seu amor pelo preferido do pai.
“Lendas da paixão” é um excelente épico!
Não precisa assistir às seis da matina, recomendo.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A HORA MAIS ESCURA é claramente o melhor filme.

Vários filmes candidatos ao Oscar relataram histórias reais neste ano.
Apontei ARGO, sobre a invasão da embaixada dos EUA no Irã, em 1980, como merecido vencedor.
Não tinha assistido A HORA MAIS ESCURA. O último da lista.
A Academia não teve coragem de elegê-lo.
Na trama, matéria de TV mostra o Presidente Obama mentir. Nega o uso da tortura durante a longa caçada a Osama Bin Laden. Não era possível premiar este filme e dar mais destaque ao velho método.
A Diretora de GUERRA AO TERROR, vencedor de Oscar, Kathryn Bigelow merecia o bis.
Jéssica Chastain(Historias Cruzadas e Árvore da Vida) interpreta com louvor  agente da CIA, Maya, recruta que por intuição, inteligência e obstinação leva os americanos ao seu maior feito de vingança da história ao achar o terrorista Osama e matá-lo, enterrando, por hora, parte dos fantasmas de 11 de setembro, a data.
O filme é escuro por necessidade, mas deixa claro os bastidores de uma caçada de dez anos, recheada de atentados, investigações, abusos, traições, perdas de vidas inocentes de lado a lado.
Ao vê-lo, e sendo testemunha dessa amarga história( quem não se lembra do atentado e seu efeito em nossas vidas?) senti uma emoção muito especial que não sei bem explicar.
Perplexidade, asco, medo, satisfação, alivio?  Não sei exatamente.
Ao meu lado uma Ministra viu o filme com mesma tensão.
Que será  que ela pensou com as cenas de tortura e os bastidores de uma investigação tão importante quanto secreta?
Quantas decisões militares, ou não, mas guardadas a sete chaves, e para sempre,  ela já acompanhou?
A HORA MAIS ESCURA instiga muitas inquietações, explica outras, preocupa bastante.














sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

“As Aventuras de PI” surpreende, encanta e quase me deixa sem palavras.


Quando me emociono o suficiente para compartilhar um filme no blog tenho pouca dificuldade para escrever.
Deixo a emoção e a lembrança fluírem. Fiel ao pensamento. Sem preciosismos.
Mas, desde ontem, procuro tranquilidade para organizar o turbilhão de emoções que este filme me causou.
Nunca vi nada igual no cinema, mesmo que a tecnologia de hoje transforme um diretor em mágico.
O realismo-fantástico que nos envolve parece verossímil, mesmo para uma plateia de adultos.
A mistura de uma aventura juvenil em 3D com uma quase saga, a fé poderosa de um garoto, as maravilhas que o diretor de fotografia consegue realizar nos mostrando aspectos inéditos da vida em alto mar, o roteiro preciso, sem armadilhas, mas criativo e translúcido, enfim, formam uma extraordinária invenção surpreendente de um diretor ousado como Ang Lee (O Segredo de Brokeback  Mountain).
Um dos protagonistas, o principal, é o jovem ator Suraj Sharma, desconhecido, que nos faz deixar a sala pensando em seu próximo filme. Foi escolhido por acaso. Compareceu aos testes apenas para acompanhar o irmão.
O outro é um tigre. Sobre ele, o meu respeitoso silêncio.
Ambos atravessam o pacífico numa pequena balsa, após um naufrágio. No final, os dois se salvam e um deles conta a história mais sensacional que já vi e ouvi.
Tomara, tomara mesmo, que tudo tenha sido verdade.
O filme está indicado a 11 estatuetas, foi feito nos EUA e deve entrar para a história do cinema contemporâneo.
Difícil outro candidato ao Oscar ser tão magnífico. Este filme é paixão imediata.
O autor do livro em que o filme foi baseado, Yann Martel, se inspirou num outro, escrito pelo brasileiro Moacyr Scliar. Este conta a fuga de um refugiado judeu que atravessou o Atlântico num bote, acompanhado por um jaguar.




terça-feira, 13 de novembro de 2012

A arte de ser Fluminense

É diferente. Ser Fluminense é diferente.
Não somos a maioria, é verdade.
Também não estamos na "Boca de Matilde", como se diz.
Não temos (ainda) a nossa arena. Tomamos emprestado, sem contestação, o Maracanã, ao longo de nossa vida.
O estádio das Laranjeiras é acanhado, singelo, no meio  da cidade.
O nosso "CT", modesto e em reforma, fica em Xerem, cercania da "maravilhosa".
Tricolores "famosos" se contam nos dedos:
Nelson Rodrigues, Cartola, Chico Buarque, Jô, Bial, Nelson Mota, Carlinhos Vergueiro, Evandro Mesquita, Milton Nascimento, Sérgio Malandro, Marisa Monte, Hugo Carvana, Ana Botafogo, Arthur Moreira Lima, Paulo Ricardo, Elis Regina, Ivan Lins, Fernanda Torres e sua mãe, Ronaldo Bôscoli, a garota de Ipanema, Helô, Gilberto  Gil, Dado Villa-Lobos, Toni Platão, Wanderléia e outros nobres torcedores que minha memória esqueceu com carinho.
Mas tudo isso, jeito e história, parecem transcorrer com muita arte.
Nossa pequena torcida escreve músicas, livros, encanta, interpreta, danca, faz piada e emociona como os versos de Cartola, suaves.
Por isso, disse Nelson Rodrigues:
"Se o Fluminense fosse jogar no céu, eu morreria para assistir".
Seria, convenhamos, o maior espetáculo do outro mundo.

domingo, 4 de novembro de 2012

"Gonzaga - De Pai para Filho", o filme, é tão bom quanto os dois.

O filme brasileiro de Breno Silveira não só homenageia, recupera e explica a vida do Rei do Baião.
O Diretor de “2 filhos de Francisco" expõe com zelo e cautela os conflitos de pai e filho, nos emociona com a saudade do nordeste, de nossas infâncias, da riqueza e bravura daquele povo.
Relembra que todo ídolo é tão humano, e falível, como o mais humilde dos seus fãs.
Uma das cenas que me emociona, nestes tempos das falsas celebridades e da esquizofrenia pela unanimidade, se passa no Rio de Janeiro, em 1947.
Decidido a cantar para o povo, Luiz resolve subir na laje do teatro e não apenas se apresentar para aqueles que conseguiram ingresso.
Lá de cima, vê-se ovacionado, em cena de causar inveja aos mitos populistas.
A cena é antológica, poética e política.
Luiz foi um Rei, teve povo, foi perdoado pelo filho e escreveu com a mais particular inspiração a música que o imortalizou e a sua (nossa) gente.
Como nos filmes, sua trajetória teve início por causa de um amor impossível e que, se concretizado, poderia ter escondido do mundo o talento da "sanfona" e deixado o baião arder na secura do sertão nordestino.
Deixe de” bestagem” e vá ver este filme arrebatador.
No elenco, além de notáveis desconhecidos intérpretes de Gonzaga, escolhidos em pesquisa intensa, a jovem atriz Nanda Costa, protagonista da novela "Salve Jorge", faz a mãe de Gonzaguinha, num dos aspectos mais sensíveis da vida do pai, do filho e de uma mulher naqueles tempos.
                                          . 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Tambaqui, camarão, pato e carneiro

José Carneiro é Vieira também. O nome é um cardápio de bicho da terra e do mar. Carne e molusco.
Conheci esse patoense na minha infância.
Foi o primeiro ser humano que mesmo com o braço quebrado mantinha o charme, jogava bola com as malandragens da perna esquerda e era meu primo. Tudo ao mesmo tempo.
Vivíamos à época, como agora, em um "bom clima".
Seus cabelos cacheados pareciam ser para sempre, embora já sugerissem que ele seria botafoguense.
Mas deu tudo errado.
O pouco do que restou lembra um resquício de neve escorregando do cume indefeso de uma montanha arredonda.
Na verdade, Zeca, Neto, Netinho ou Carneirinho é um dos cabras mais puros e generosos que conheço.
E com espontânea e incomum alegria preparou um cardápio de chef no sábado que passou.
Sua casa acolhedora apresentou um desfile premiado: tambaqui do Amazonas grelhado em filés tenros e bem temperados, moqueca maranhense com gosto de praia de pescadores e pato no tucupi com jambú aromático do Pará.
Misturando-se com tudo, uma farofa amarelinha e torrada das bandas do grande rio.
Suaves cachaças na entrada como aperitivo e pudim diferente na saída.
Roteiro se achou e se perdeu com tanta formosura e delicias de Zeca.
Luiz Raimundo, Carlos Augusto, Maria da Paz, Kátia, Léa, Cláudia... Vocês perderam.

Adivinhe quem é o chef Carneiro.