sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

"Ninfomaníaca - volume 1" não é erótico. É dramático.


Minha intenção não era assistir este filme, embora tenha percebido que sempre havia fila desde que estreou aqui em Brasília.
Mas o filme escolhido, "Capitão Phillips", só iria começar muito além de minha chegada. Fiquei com preguiça de esperar por umas duas horas.
Então, entrei no primeiro possível e decidi descobrir as motivações da fila. Tinha lido muito superficialmente.
Não sabia o que iria ver. Entreguei-me à surpresa.
O filme me pareceu triste. Foi assim que respondi para Taisa, que perguntou lá de São Luis se tinha gostado.
Aliás, o diretor dinamarquês  Lars von Trier gosta de depressão (Melancolia, um de seus famosos, é um exempolo).
O filme segue ainda outra marca dele. É simples, sem precisar de grandes recursos. Gente e texto.
A natureza de uma ninfomaníaca, que no senso comum sofre brutal discriminação e é vista como escória depravada, surge de outro modo e, merecidamente, pode ser vista sobre o ponto de vista de um dramático distúrbio, merecedor de atenção e compaixão, não de piadas repugnantes.
Charlote Gainsbourg (a Joe adulta) e Stacy Martin (a Joe jovem) nos causam pena, tristeza e vontade de socorrer. Perdidas em seu vício, são almas penadas em busca daquilo que tanto evitaram, o conforto do amor, do zelo e carinho que os amantes têm uns com os outros, mesmo que sofram grande parte da vida por estas pérolas. Eu gosto do amor.
Shia LaBeouf( Transformers)  se apresenta bem, mas sem o brilhantismo e carisma que o revelaram. É o amante amado.
As cenas reais de sexo foram gravadas por atores pornôs, mas os do elenco se expõem com muito profissionalismo.
Minha tristeza ficou por conta do paralelo que estabeleci com a vida real. A dor dos distúrbios de comportamento, inatos ou adquiridos. Um desafio humano.
Há muita coisa no universo do tema, principalmente as loucuras dos homens, suas terríveis inseguranças.
Há o drama da família. Há a melancolia presente na vida. Há o gozo do sexo e a dor também. Hoje, ao escrever, vejo o filme com menos tristeza. Começo a admirar a obra.
Preparem-se.  Em março, o volume 2.

 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Roteiro tem uma grande dúvida. E não é sobre filmes, politica ou futebol.


A foto é clara.
A presença do monge também.
Não sabemos ainda os efeitos de uma comunicação instantânea, sem limites de tempo e espaço.
A ciência se debruça e pesquisa.
Resultados chegarão junto com os efeitos.
A novidade não é pouca coisa.
Nunca nada parecido aconteceu.
Acabará tudo bem?
Tenho dúvidas nessa adaptação.
Parte importante da vida se perderá como a contemplação, a espera, o tempo.
Ainda haverá saudade?
O que é o tempo, desde agora, para uma criança que ganha seu aparelho após o primeiro choro?
Ou espaço?
É possível remar contra a maré?
Estou pensando seriamente nisso.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

"O mordomo da casa branca" é drama para não se esquecer

Os dois últimos grandes filmes a que assisti sobre a luta por direitos civis e a escravatura nos EUA foram “Histórias Cruzadas” e “Django Livre”.
No primeiro, além da sensibilidade que o tema me desperta, a reconstituição da vida das empregadas domésticas entre as décadas de 50 e 60, foi impecável, dando ao filme total consistência.
“O Mordomo da Casa Branca” (EUA), lançado esta semana no Brasil, é mais uma  contribuição do cinema sobre este drama americano, reconstitui boa parte da história política dos  EUA de Eisenhower a Obama, me levou à cozinha da casa presidencial e me serviu um drama peculiar.
O protagonista Cecil Gaines (Forest Whitaker) é um negro que nasceu escravo e consegue chegar ao posto de mordomo do Presidente dos EUA, conformando-se com as injustiças a que fora vítima desde que chorou pela primeira vez. Como outros milhares, deixou a submissão salvar sua vida.
Aquela decisão, em diversos níveis, que tomamos em nossas vidas o tempo todo, seja aqui ou em qualquer outro lugar do mundo.
Mas sua vida familiar iria levá-lo a um drama pessoal e político avassalador, torturante, abrindo a cada dia uma ferida difícil de cicatrizar.
Mais uma vez, a reconstituição daqueles tempos é arte.
Os sofrimentos dos negros brasileiros, americanos e sul-africanos, com os quais meus anos de existência permitiram conhecer não me deixam acostumar com histórias assim.
As primeiras cenas do filme fazem minha ferida de incompreensão sempre sangrar, mesmo que através de lágrimas.
Trazidos até mim desde a infância pelo noticiário, livros e o cinema, os relatos destas histórias reais são convites para profunda  reflexão. Este filme me  comoveu.
Impossível não se lembrar dos protestos de hoje no Brasil, embora por razões diferentes.
Os Black Blocs já foram, em alguma medida, os Panteras Negras.
O diretor Lee Daniels recebeu aplausos do New York Times e  do Chicago Sun-Times.
No elenco, estrelas como Robin Williams, John Cusack, Jane Fonda, Mariah Carey e Oprah Winfrey, a famosa apresentadora.
Certamente estará na lista do Oscar, como “Gravidade”, “Suspeitos” e o “Capitão Phillips”.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Serra Pelada, o filme, tem muito mais que ouro.


Serra Pelada, o filme, tem muito mais que ouro.
Tem um Brasil que nos envergonhou, carimbó (coisa boa), dor, e o melhor ator brasileiro da atualidade, Wagner Moura, que, embora não seja o protagonista, nos encanta e nos faz felizes. 
Sua interpretação de um cafajeste nacional é extraordinária, convincente, gigante.
Roteiro se emocionou com o mocinho de “Tropa de Elite”. Agora, um bandidão.
Mas ele vem bem acompanhado. 
Juliano Cazarré, o mesmo que fez um rapaz bobo em “Avenida Brasil” e é o “Ninho” da atual novela das nove, Júlio Andrade (Gonzaga - De pai para filho) e a atriz Sophie Charlotte, a jovem e malvada “Amora” de Sangue Bom, completam um quarteto dourado.
Ela nos dá pena, como mais uma criança que vira prostituta numa terra sem lei, mas entra para o cinema.
Parabéns, garota. 
Minhas filhas, que nasceram depois do grande festival de sonhos e atrocidades que o ouro do Pará fez reluzir, ficarão chocadas com aquela montanha que se torna um grande buraco, onde floresceram alguns ricos, padeceram pobres, milhares foram explorados, houve desilusões e mortes, muitas mortes. 
Um “faroeste” tropical, próximo de “Sodoma e Gomorra”.
Os ricos? Confesso que não conheço nenhum. Devem estar por aí. 
Mas o filme é bom, firme, denso, tenso e educativo. Muitas lições.
O Heitor Dhalia, guarde o nome desse Diretor, resgata uma história marcante dos anos 80, documentando para sempre.
Ficção em meio a uma realidade nua e crua e que parece nunca acabar, de certo modo. O filme é de ação, também. Não é só drama.
Consegue, enfim, em meio a tanto brilho de suposta riqueza e nauseabundos extermínios, lembrar que as paixões podem encontrar terreno fértil para uma desgraça, ou várias. 
Viva o cinema nacional e seu novo tempo de ouro. 

sábado, 12 de outubro de 2013

"Gravidade" não é ficção científica.


Em 11/06/2011, escrevi sobre o filme "Céu de Outubro" em homenagem ao meu irmão, Douglas, morto em 2008. Ele foi a primeira e única criança que conheci apaixonada pelo espaço. Foi por causa dele que conheci o primeiro telescópio amador. Até hoje, em seu escritorio, há aquela famosa fotografia dos três astronautas americanos que pisaram na Lua. Nós ouvimos tudo pelo rádio. Herdei , entre outras lições de vida, o encanto pelo espaço e tudo que esconde, ou revela.
Uma pena, Dodô, não assistires, daqui, o mais espetacular filme sobre o espaço, e sobre a gente também.
Em homenagem à criança que resiste em mim, fiz questão de me dar de presente a estréia do filme e fui o terceiro a entrar na sala, apesar das poltronas marcadas.
Fui cheio de expectativa e ansiedade.Tudo programado. 
Celulares desligados, comi a pipoca antes para que nada me tirasse a concentração.
"Gravidade" é o melhor filme do ano, o melhor sobre o espaço de todos os tempos, deve ser candidato ao Oscar e Sandra Bullock  chega ao Olimpo do cinema , apesar de já ter o seu Oscar por " Um sonho possível"( 2010). 
Apesar da classificação "ficção cientifica", é um filme filosófico e poético. Mostra-nos à deriva da incompreensão sobre a vida em meio a um ambiente desconhecido e intrigante pela estética espacial, concreta e misteriosa, impassível e bela.
A tecnologia 3D nos coloca ao lado de Sandra e muitas vezes com seu ponto de vista e dificuldade para respirar. A propósito, não fique longe da tela. O meio da sala é indicado. Aproxime-se e mergulhe.
O filme não é claustrofóbico, como parece. É tenso, mas não dá medo. 
Há uma esperança no ar. O espaço nos vê com mais pena do que desprezo. 
De lá, vê-se a nossa mediocridade aqui embaixo, a insignificância das lutas pelo poder, a perda de tempo e energia com o medo e a inércia, a percepção errada sobre o que é a vida e o que importa. E descobre a coragem quando não pode mais contar com ninguém.
Certa vez, sobrevoando os limites da Sibéria e grande parte do território chinês, por longas horas, olhei para baixo e tive essa sensação, essa percepção que referi acima.
No cinema, ontem, não sobraram dúvidas. 
Ficar à deriva não é uma viagem necessária.
Sobre o espaço em si? Bem, deixo para Deus, o meu, explicar aos poucos.
O filme é dirigido pelo mexicano Afonso Cuaron(Harry Potter) e ainda tem um elegante e charmoso companheiro da astronauta, interpretado por George Clooney.
Corra para o cinema. Aliás, vá voando.